Ser artista é ser, concomitantemente, a seringa, a agulha, o líquido com o qual se inocula a
si e outrem, a mão que aplica a injeção, a imunização, os possíveis efeitos adversos, as
cobaias e quem coordena o experimento.
Ser artista é ser a própria ampulheta, a areia contida nela, a aleatoriedade ou a ordem que
a organizam ou desorganizam a cada virada e a mão que decide quando manipular a
encantaria do tempo.
Ser artista é tocar a campainha e se desdobrar em dois, sendo que um fica na soleira da
porta e o duplo corre para dentro da casa, para espreitar por detrás do ombro de quem
atende ao chamado.
Ser artista é como alguém especialmente habilidoso em prever o tempo em travessias, mas que em certas expedições que faz sozinho ou na companhia de outrem abandona tal
aptidão, a fim de que possa perambular despido dos apetrechos que o impediriam de se
defrontar com a cheia súbita do rio, o granizo, a ventania ou o sol que esturrica durante o
trecho mais pedregoso da caminhada.
Ser artista é como o sol do litoral, inexistente em outro ambiente, que brinca com o
veranista que, repentinamente, abre os olhos e não tem escolha, senão ver o azul gritar em tudo que há ao redor.
Ser artista é ser aquela que se voluntaria a se colocar em risco de morte, por se esgueirar e subir até o alto do mastro e ajeitar nós, vela e antenas do rádio, com o objetivo de que a
jornada de todos continue.
Ser artista é, o tempo todo, quando diante de algo relevante, pulsante, deixar o corpo e
retornar a ele, com 10 gramas a mais de pó mágico a cada vez.
Ser artista é ser clareira e mata fechada.
Ser artista é como depositar, ininterruptamente, fichas em uma máquina caça-níqueis para tentar acertar a sequência de símbolos, celebrando a vitória sozinha ou eventualmente acompanhada.
Ser artista é estar no breu, nua e permitir o abraço de mil tentáculos, cuja temperatura e
textura jamais se antecipa, pois podem vir gélidos ou aconchegantes.
Ser artista é oferecer um pedaço de espelho quebrado que pode se encaixar exatamente
em outro.
Ser artista é andar com um copo no bolso para, eventualmente, sacá-lo e colocá-lo colado
na parede, para escutar algo íntimo.
Ser artista é optar entre provocar uma quase imperceptível rachadura em uma parede, para que a erosão dê conta do resto, e pegar logo uma marreta.