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um dos filmes irretocáveis. realmente fabuloso. dos meus favoritos de todos os tempos.

desde a época da faculdade de cinema, uma das temáticas que nele aparecem fica martelando. muito por influência da pessoa por quem eu era então apaixonada, que a colocava constantemente sob uma lupa nas recomendações fílmicas do nosso círculo. fui assistir, contudo, muitos anos depois, sem imaginar o que representaria pra mim.

às vezes, se torna impossível fazer morada no outro. a condição se esvai em definitivo quando esse outro opta por dar a volta ao mundo pra evitar reconhecer e se reconhecer, num processo que eu considero empobrecedor da vida.

pra quem foi inviável a fundação da casa, talvez haja outra oportunidade, mas pro esquivo a coisa é incontornável. e implacável também, já que essa coisa vai permanecer latente e ressurgir e ferir quantas vezes for necessário até que ele se coloque de modo honesto.

a ronda não vai cessar enquanto ele não se submeter ao ritual primordial. travis tinha ao seu lado jane, mas mesmo a presença dessa mulher magnífica foi insuficiente pra ele.

ela é estupenda, vertiginosa porque comporta sua falibilidade e sua incompletude. é ela quem se mira no espelho, ao contrário dele, que prefere vagar, na tentativa de fazer sumir toda sua hostilidade, seu controle, seu descontrole, sua agressividade e as violências que, sim, praticou. inclusive, as do ciúmes que procurou sufocar, manifesto ao acorrentá-la ao fogão.

as reminiscências que guarda dela não vão, porém, embora por milagre, como travis supunha. em seu devaneio, a paralisia desse vaguear lhe restituiria tudo. não adianta, o que se é e o que se sente vazam pelos batentes e esquadrias. vagueia para ficar em sua imobilidade.

o amor não tem como prescindir da falta, e a paris dele jamais será aquela paris.