
tava escrevendo uma carta, há pouco. vi, por acaso, um post, que me levou ao perfil de uma pessoa que era mais ou menos do meu círculo no twitter, quando a rede era ótima ainda.
e descobri que o companheiro dela morreu há alguns dias. de infarto. aos 50 e poucos.
numa das cartas, ela narra a história de um cachorro. e seu nome era o nome do meu namorado que faleceu, também muitíssimo cedo e repentinamente. meu escrito interrompido até a hora do post era pra ele.
vi as cartas que ela escreveu pra ele, desde a sua partida. numa delas, conta que ele revelou ter se apaixonado quando ela se abaixou pra pegar um jasmim na calçada. nos últimos dois anos, parece que viro cercada por jasmim-manga, árvore que amo e queria no meu quintal. parece sempre à espreita – agora, ainda mais, com a multiplicação das coincidências na minha vida.
estavam reformando a casa. enquanto vi casais se formarem e se dissolverem, eles dois lá, consistentes e leais um ao outro.
ela agradece: obrigada pelos 11 anos de vida que você me deu. dedica into my arms, do nick cave.
quando chegou a notícia da morte súbita de um amigo, também me senti abatida feito um animal. atingida, no breu, por uma bala quente.
as coincidências. as cartas que são também correspondências.
hoje, depois de reunião de articulação política, um companheiro se desculpa por andar algo ausente. sua esposa está ansiosa, com ataques de pânico e o quadro de demência pior.
ontem eu fiz um jogo infantil de “se eu abrir o livro numa página que cite ‘amor’, eu enveredo pelo caminho tal”. quase um bem-me-quer, mas pra sair da indecisão em um assunto prático. abri um dos que tenho levado pra cima e pra baixo, economizando a leitura, feita aos pouquinhos.
não havia menção à palavra. foi muito mais arrebatador, pois era sobre uma escultora em crise, com bloqueio criativo, a quem um amigo remeteu uma carta, enfatizando da melhor maneira possível a necessidade de ela calar sua versão hesitante. a idade dela quando morreu? 34. mais do que precoce, sua ida definitiva.
a vida é essa matemática tão bela e misteriosa quanto perversa e incompreensível.
escutando essa, que eu repetia muito naquela época.
quando se mora sozinho, quem é que sente diariamente tua falta, sem faltar?