Letycia Treitero Kawada – repórter da Agência Brasil
24/06/2026
A organização Time To Act está lançando a campanha Saúde Mental Climática(https://www.saudementalclimatica.com/), para fomentar os debates, na sociedade, sobre como a crise climática no planeta provoca danos emocionais, psicológicos e comunitários. A mobilização pede, ainda, a criação de uma política nacional com esse foco, que seria instituída através do Projeto de Lei (PL) 6151/25), em tramitação, atualmente, na Câmara dos Deputados.
A proposta foi apresentada (https://www.camara.leg.br/noticias/1275371-projeto-cria-politica-nacional-de-saude-mental-para-atingidos-por-desastres-climaticos/) pelos parlamentares Pompeo de Mattos (PDT-RS) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS). O plano é oferecer atendimento às comunidades atingidas por riscos e eventos climáticos extremos, interligando assistência social, saúde, educação e defesa civil, suprindo demandas de todos os grupos populacionais, de crianças a idosos, pessoas com deficiência e também profissionais que atuam na rede.
O PL deve implementar, além do Sistema Nacional de Saúde Mental Climática, Centros de Resiliência, Cura e Reconstrução de Comunidades. No texto, os dois deputados federais também atribuem ao sistema a função de divulgação científica sobre temas relacionados à espinha dorsal do programa e reiteram a necessidade de a política nacional contemplar ações de prevenção.
Em entrevista exclusiva, concedida à Agência Brasil, a fundadora da Time To Act, a produtora, diretora de cinema e advogada Luciana Brafman, conta que a situação precária em que ficaram famílias filipinas, depois de um terremoto, e a de gaúchos, com as enchentes de 2024 (https://agenciabrasil.ebc.com.br/tags/chuvas-no-rio-grande-do-sul) acenderam nela o desejo de comandar articulações para dar mais visibilidade a essa causa. Os filipinos, por exemplo, permaneceram morando em barracas mesmo já passado um ano e meio do ocorrido, o que a fez refletir sobre a força que os atingidos climáticos precisam desenvolver para colocar as vidas nos eixos novamente, muitas vezes, sem ajuda das autoridades governamentais e sem psicológico para tanto.
Como menciona Brafman, contratada da Organização das Nações Unidas (ONU) como consultora de políticas públicas sobre clima, sustentabilidade e bem-estar das comunidades, a destruição associada às mudanças climáticas vitimam, especialmente, grupos minoritários, como povos originários, quilombolas, a população negra, mulheres e moradores de periferias e favelas. De acordo com o relatório “Encruzilhada Climática: Um Retrato das Desigualdades Brasileiras”, também da Oxfam Brasil (https://www.oxfam.org.br/encruzilhada-climatica-um-retrato-das-desigualdades-brasileiras/),
“Não adianta nada reconstruir uma região com uma comunidade inteira traumatizada”, argumenta a ativista, que rodou um filme, “Memória Radical”, durante as enchentes de 2024, no Rio Grande do Sul, e sublinha que as pessoas estavam tão adoecidas mentalmente que suas entrevistas acabaram não sendo aproveitadas.
Foi na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), em que exibiu o documentário, codirigido com Ricardo Carioba, que surgiu a ideia de estruturar os Centros de Resiliência, Cura e Reconstrução de Comunidades agora previstos no PL 6151/25. Ao final do evento, Brafman e outros ativistas alinhados à proposta se reuniram com senadores e deputados federais do Rio Grande do Sul, para tentar levar o projeto ao Congresso Nacional e tirá-lo do papel este ano, quando, pelas eleições, muita coisa acaba engavetada e adiada.
“[A meta é] Preparar as pessoas, para que fiquem resilientes. Senão, vai se reconstruir essas cidades em cima de trauma. Até a prosperidade econômica dessas regiões vai ser afetada”, explica Brafman, que critica, ainda, a descontinuidade do socorro, frequentemente prestado pontualmente e cessado assim que “o holofote vai embora e elas continuam ali.”
“Inicialmente, a ideia era ter empresas para patrocinar esses centros e treinar psicólogos, pedagogos locais. Uma saúde mental coletiva. Porque saúde mental individual no Brasil já é incrível. Tem Sistema Único de Saúde (SUS), Fiocruz, os profissionais são muito bons – fiquei surpresa, para falar a verdade com o que a gente tem no Brasil. Mas a resposta de emergência e coletiva, a gente precisa de muitos profissionais ainda, está faltando.
O pedagogo Reinaldo Nascimento, especializado em emergência e trauma, trabalhou no atendimento de famílias do Rio Grande do Sul e também esteve em Gaza, na Palestina. Em campo, observou crianças gaúchas acolhidas pelas equipes que integrou exibindo comportamentos que refletiam emoções emergidas com a experiência da devastação completa de suas vidas e lares. Muitas delas, diz ele, mesmo com 10 anos, voltaram a chupar o dedo e fazer xixi na cama. Também tinham medo de dar descarga, por associar o som à chuva.
Segundo Nascimento, as denúncias de violência sexual infantil também foram como esqueletos no armário que acabaram sendo escancarados e impactando as crianças e os adolescentes vítimas desse tipo de crime, muitas vezes silenciado até as enchentes. O que aumentou a sensação de vulnerabilidade e o grau de medo.
Além disso, pontua o profissional, atuante como terapeuta social da Associação de Pedagogia de Emergência no Brasil, as escolas, sempre tidas como espaços seguros pelos estudantes, entraram na lista de locais desabados.
“A escola ainda é o lugar mais seguro que existe, onde pode xingar, onde se tem um abraço, comida, a sensação de que pertencem a algum lugar.”
À época dos incidentes no sul, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) preparou orientações para se acolher adequadamente crianças e adolescentes em processo de trauma climático e estresse tóxico (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-05/unicef-lista-orientacoes-para-criancas-afetadas-por-enchentes-no-rs). Entre as recomendações, está manter a calma ao conversar com a criança, uma vez que as crianças sentirão o mesmo que têm diante de si, algo confirmado por Reinaldo Nascimento, que relembra que era justamente o nervosismo manifestado pelos pais que serviam de gatilho para algumas crianças que atendeu.
Desinformação e negacionismo
O combate à desinformação e a difusão de dados e informações confiáveis e cientificamente comprovados são pontos fundamentais no contexto do PL e da campanha. Um levantamento recente da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) identificou um maior nível de ceticismo a respeito da severidade da crise climática no Brasil do que em países vizinhos, como Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru (https://portal.fgv.br/noticias/pesquisa-analisa-pensam-brasileiros-sobre-mudancas-climaticas). Ao todo, 44% das mais de 5 mil pessoas participantes da pesquisa expressaram esse tipo de descrença, e o próprio estudo oferece uma saída: o que mais convence os céticos é o consenso científico. O elemento central na minimização das mudanças do clima é o grau de individualismo das pessoas, ou seja, quanto mais individualista, mais duvida do cenário crítico e da urgência, portanto, da adoção de medidas.
Outra peculiaridade dos brasileiros é a maior abertura às mobilizações. A equipe da FGV descobriu que são mais propensos a apoiar políticas pró-clima do que em outros cantos do mundo, sejam de posicionamento à esquerda, seja à direita do espectro político.
Complementar, uma pesquisa conduzida por cientistas do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia, da Fundação Oswaldo Cruz (INCT-CPCT/Fiocruz), constataram, a partir de entrevistas de mais de 2 mil pessoas, (https://humanamente.fiocruz.br/agora/valores-ideologicos-influenciam-negacionismo-climatico-no-brasil/), que 12% compreendem como causa das mudanças climáticas alterações naturais, uma inverdade, já que o desequilíbrio ocorre como resultado, principalmente, das chamadas ações antrópicas, isto é, do ser humano, em uma espiral de consumismo e lucro, que esgota a natureza por todo o mundo. Material produzido pela Oxfam Brasil destaca que uma pessoa do grupo dos 0,1% mais ricos do planeta emite mais carbono em um único dia do que uma pessoa entre os 50% mais pobres emite em um ano inteiro e que os bilionários não só consomem descontroladamente, mas investem em setores poluentes, como o de petróleo, o de gás e o minerário (cerca de 60% de seu dinheiro aplicado) (https://www.oxfam.org.br/relatorio-saque-climatico/).
Os entrevistados mais informados ou favoráveis à igualdade de gênero, à justiça social e à melhor distribuição de renda demonstraram ser os menos negacionistas climáticos. Valores políticos-ideológicos, acrescentam os pesquisadores da Fiocruz, definem se uma pessoa é mais ou menos negacionista.
Em um esforço de compreender como a desinformação vai ganhando corpo na Amazônia, região que, internacionalmente, representa fortemente o Brasil e permite, por isso, a mensuração de disputas na área socioambiental, o coletivo de comunicadores Intervozes investigou e provou a relação entre discursos de ódio e determinadas crenças, com o Amazônia Livre de Fake (https://amazonialivredefake.intervozes.org.br/#relatorio). Entre diversos exemplos citados, os comunicadores ressaltam as manobras de um senador que dizia que a Ferrogrão ajudaria no controle de emissão de CO² (https://amazonialivredefake.intervozes.org.br/wp-content/uploads/2024/07/INTERRelatorioICS2024_Final_Digital.pdf). Outra estratégia amplamente usada foi atacar e criminalizar organizações não governamentais, afirmando que desviam verba pública e deixam povos tradicionais desamparados.
