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Assim como em um terreiro e em suas extensões porta afora – se é que desse modo se pode definir, sem debater muito, para a conversa avançar – exige-se, no fazer artístico, o imprimir de intenções, e percorro dessa forma as ruas, as folhas de desenho e os pensamentos que me ocorrem antes e depois delas. No caso da fotografia, linguagem à qual me dedico com claro propósito há mais tempo do que o desenho, busco capturar o que passa batido, pois vejo imenso valor no ordinário tornado extraordinário e também no que aparentemente não é excepcional mas que pode ser encarado como epítome de problemas sociais do Brasil contemporâneo e, é claro, da São Paulo de hoje também.

Nesse sentido, podem ser aludidas em meu trabalho a historiografia do país, a violência e a letalidade policiais, a violência contra mulheres e a defesa de seus direitos, a distinção que jamais devemos deixar de fazer entre matérias em estado bruto ou industrializado/processado/homogeneizado, porque são elas o que constitui e define os espaços disputados socialmente. Mais recentemente, a fotografia de rua tem me permitido, diante da infinitude do mundo e meus eventuais embotamentos internos, descondicionar minha visão e me colocar à disposição para ser um canal de fomento de indagações.

O fotojornalismo também cumpre uma função essencial na esfera do que crio, e tenho especial apreço por observar ambientes. Ele vai vazando sobre a minha mesa de desenho, espirra na lente da câmera fotográfica, não adianta. Talvez eu, na metade restante da minha vida, exerça 100 carreiras profissionais e morra repórter.

Morei em quatro capitais brasileiras. Atualmente, resido em São Paulo capital, e fico me perguntando como está a especulação imobiliária nas que deixei para trás. Se tem engolido imóveis antigos, que deveriam ser tombados, tamanho seu valor histórico-cultural. Em 2022-2023, quando morava no centro, vi uma casa da década de 1950 ser levada abaixo e perder o lugar para uma quadra de beach tennis, uma das febres hodiernas e com tempo contado, uma vez que a roda do querer, no sistema, não deve parar. O muro? Foi elevado. Erigido completamente cinza, como aqueles do período em que o entusiasta do neoliberalismo devorador e prefeito João Doria ordenou que emissários vagassem pela maior cidade da América Latina, detentora de títulos importantes de arte urbana, com a missão de deletar grafites, pichos, lambes, no fenômeno que ficou conhecido como maré cinza.

Estar sem saber, neste exato momento, onde foi parar a foto que tirei desse disparate é revelador no que se refere ao volume de cliques feitos e armazenados e se contemplam prévia ou posteriormente a poética que me norteia. E é esse mesmo cinza que contrasta com a maioria dos meus desenhos, geralmente bem vivos, com sua mistura de cores.

O multicolorido que preservou em mim o mínimo de sanidade e lucidez para sobreviver à pandemia, com a qual lidei, na maior parte do tempo, completamente sozinha, recém-chegada à megalópole, cuja efervescência situava-se fora do meu alcance. E, ainda, vítima de perseguições incessantes, como retaliação pelo meu posicionamento de oposição ao governo federal, de ultradireita e, entre outras milhões de consequências evitáveis e imperdoáveis, responsável pela morte de 700 mil pessoas, em contagem caracterizada por subnotificações.

A fotografia, identicamente, me devolve, restitui, elementos que, ou fortalecem a monotonia -, inclusive, dos vários tipos de violência -, ou a estilhaçam em pedaços de tamanhos diferentes, sendo que, não raro, um deles, descubro, é um espelho ou superfície espelhada que reflete mas deforma. De todo jeito, acolho cada criação, seja estudo/pesquisa, seja algo mais definitivo. Nessas peças ficam registrados os meus e nossos humores.

E digo “o mínimo” ali porque era o que eu conseguia sustentar, com tantas adversidades e, entre outros eventos, feito o suicídio de duas pessoas que se jogaram de dois prédios diferentes em que residi. É algo como estar encerrada em uma despensa, tão faminta e desesperada quanto incrédula, com mãos ora atadas, nas horas em que repõem os alimentos nas prateleiras, ora soltas, quando as latas já enferrujaram e potes estufaram.

Não por acaso, embora sempre tenha tido facilidade com as palavras, censurada na redação de jornalismo, já não mais possuía capacidade para com elas exprimir minhas emoções. Experimentei, no período, até colagens, que nunca havia me arriscado a fazer.

Nas pontas dos pés ou conectando-me a pessoas dos meus caminhos, vou avançando com a mentalidade de uma flaneuse. A tiracolo, estão a câmera fotográfica e o esforço em desacelerar o passo, ainda que o som e a fúria de São Paulo eventualmente me/nos vençam.

De forma semelhante aos meus desenhos, que aparecem majoritariamente em diminutas folhas, intervenções figuram sem muito alarde. Gosto dos pequenos formatos e bem sei que não são os favoritos de muita gente.

Procuro praticar um desenho despretensioso, confortável para usá-lo como veículo de sonhos meus, retratando-os exatamente como me lembro e meu corpo me autoriza a traçar. Afinal, por definição, o desenho é desprendido de luxos, o que faz dele radicalmente acessível e uma das minhas linguagens favoritas.

Uma vida toda de multiplicidade de interesses e participações é a minha. O indigenismo, contudo, é um capítulo à parte. Pelo grau de meu envolvimento de anos e mais anos com a causa, emerge nos desenhos até inconscientemente e pode dar as caras, por exemplo, como subtexto de inúmeras folhagens que estão em meu portfólio de estudos e oficial, que apresentam um mecanismo altamente complexo e são delicadíssimas. A resistência dos povos indígenas é encontrada também nos recortes de revistas antigas que vão caindo na minha mão magicamente, se sobrepondo até formar colagens.

A auto-organização como princípio cabal é um preceito inegociável, a meu ver. Assim é e está enunciado, reiterado, berrado até que possa ser sussurrado de uma boca que sorri, em comemoração, triunfante.

A cultura popular, que continua me encantando, alinha-se perfeitamente à minha valorização pelo que se movimenta -, com sorte, em dinâmica spinozana, do primeiro entusiasmo até o fim, sem ânimos arrefecidos no meio do trajeto – a partir das entranhas da rotina. A liberdade para experimentar também vem daí.

É possível a arte por pura fruição? É menor do que a que se declara enquanto arma de levantes? De qualquer modo, continuo firme nos meus flagrantes cotidianos do belo, em meio ao que se convencionou chamar de natureza.

É imprescindível criar somente nos dias em que se encarna a versão do artista resoluto? Ou podemos, vez ou outra, deixar a porta entreaberta para expor processos criativos e, quiçá, encorajar outras pessoas a ir avante para descobrir ou investigar suas próprias inquietudes e responder com o que pensam ser representativo de seu tempo? A porta entreaberta facilita eventuais escutas e chamados.

(Escrevendo de madrugada, após um dia cintilante de curso no Museu Afro Brasil, o meu favorito de São Paulo.)


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